28 de mai. de 2011

Nas letras


Eu sou aquela mulher escondida nas letras de tantas canções.
Um certo alguém disse uma vez que uma canção podia controlar o seu humor. Por aqui, não é diferente. Na verdade, as letras não só mudam o meu humor, mas contam muito de mim e, por vezes, me ajudam a tomar decisões.
Podem até achar estranho que eu me guie pelas letras das músicas, mas eu sempre fui muito só e tive (e tenho) nas letras dos livros e das cantigas uma forma de refúgio, conforto, atenção ou desabafo.
Já fantasiei muito querendo ser a mulher ou o homem cantados em tal música, ouvindo alguém cantar pra mim ou mesmo eu cantando para. Ora, se tudo pode acontecer, por que não fantasiar?
Existem letras que não dizem absolutamente nada de mim ou do que me cerca. Mas, ainda assim, me fazem cantar e de alguma forma me permitem colorir o mundo. Em outras músicas, uma frase perdida diz muito do que eu sou. O resto da letra pode não fazer sentido algum na minha vida, mas tem aquele pedaço, ou só o título mesmo, que fala de certas coisas que eu não sei dizer.
É, enquanto ninguém me sente, as músicas vão me ajudando a sentir.
Eu já me escondi demais, na verdade eu ainda tento me esconder, até tento aparentar frieza, mas não dá. Eu acabo soltando por meio de canções e poemas o que eu estou sentindo. Ah, mas claro que cada pessoa interpreta cada letra de uma forma e, logo, não entendem o que eu quero dizer de verdade. Mas eu prefiro acreditar que alguém vai captar a mensagem, entender o que eu falo e aparecer com um sorriso... deixa eu fingir e rir.
Não sei, mas talvez eu desperte pena nas pessoas. O povo fala, o povo fala mesmo: é tão sozinha ela, tão calada, tão fria, tão só... Não queridos, relaxem, eu sou mais que isso. Eu bambo e só, mas sambo, sim e não por falta de amor, mas por amor demais.
E querem saber se eu quero outra vida? Quero não. Outra vida, não. Quero mudanças pequenas somente, uma ou outra canção nova, pra tentar ser feliz dos pés até a ponta do nariz.

Eu ficaria aqui por horas, são tantas as músicas que me preenchem, e em cada palavra que eu escrevo, em tudo que eu penso, aparece uma outra canção que quer me revelar.
Mas é melhor parar por aqui. Já falei muito. Deixo o resto pro vento.
É...deixa o vento lhe mostrar, ele sabe muito sobre mim.


P.S.: Em itálico, trechos de músicas que, claro, falam do meu eu, do meu mundo. São cantadas, compostas ou declamadas por: Ana Carolina, Arnaldo Antunes, Djavan, Los Hermanos, Lulu Santos, Paulinho Moska, Validuaté, Zeca Baleiro, Zélia Duncan. Mas teria muito mais pra acrescentar.


14 de mai. de 2011

Cansaço

"O que em mim é sobretudo cansaço –
Não disto nem daquilo,
Nem se quer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo.
Cansaço.

...
Estou cansada. Estou realmente cansada de tudo.
Me cansei das falsidades, da falta de carinho, da falta de grana. Me cansei dos ônibus e de andar a pé. Cansei das mentiras, das ilusões, dos sonhos que não vão pra frente.
Estou cansada das lágrimas que rolam no meu rosto, cansada de me calar quando eu tenho muito pra falar, de esconder que vi, de fingir que não ouvi.
Já não aguento os falsos amigos, eu não suporto os falsos. Estou demasiadamente cansada de esconder o que eu penso, o que eu quero, o que eu sinto.
...

A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém.
Essas coisas todas –
Essas e o que falta nelas eternamente –:
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
...

Cansei das contas que não param de chegar, das ligações de cobrança. Cansada de não receber ligação, cansada da televisão.
Cansada de ligar e não atenderem. Cansada da dor de garganta, da dor eterna no meu estômago.
Cansada da saudade de quem está longe e da saudade de quem está perto. Cansada do riso amarelo.
Cansada de fazer planos pro futuro, cansada de fazer planos pro presente. Cansada do passado.
Cansada do tempo, de esperar o tempo.
...

Há sem dúvidas quem ame o infinito,
Há sem dúvidas quem deseje o impossível,
Há sem dúvidas quem não queira nada –
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
...

Arre! Estou cansada até do cansaço.
Cansei das músicas, cansei do amor, cansei de sentir qualquer coisa.
Cansada das disritmias, cansada dos pensamentos.
Cansada dos sábados, cansada dos domingos. Cansada da semana.
Cansei de imaginar.
Cansada de ter vontade e de não ter também.

Desculpe as contradições ou repetições. É que estou realmente cansada.

...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço..."
(Álvaro de Campos)

[É, Campos, acho que você me entende. Pelo menos, esses versos (e todos os outros poemas seus que já li) conseguem transmitir o que eu penso, sinto, escondo, engulo.]

Eu fico por aqui.
Eu e meu cansaço.

Ufa!